Por vezes engolimos sentimentos, contemos e amachucamo-los com vergonha.
Tenho visto uns documentários que me têm deixado a pensar. Na crueza. Na violência. Na desumanidade. No desrespeito. Tenho medo da evolução tecnológica, por muito que digam que é cómodo para o ser humano, a verdade é que nos tiram a essência, nos roubam tempo e nos fazem agarrados.
Mas pior do que a era tecnológica foram os períodos de guerra. Primeira Guerra Mundial, Revolução/Guerra Civil Soviética, Segunda Guerra Mundial, Guerra Colonial, Guerra Fria e afins.
Já nos bastam as guerras interiores, os nossos próprios fantasmas. Não consigo imaginar a dor que deve ser viver nesse contexto. Não ter paz interior e exterior.
Ontem vi um documentário sobre a Primeiro Guerra Mundial. Marcou-me ouvir soldados que se debatiam nas trincheiras, para além das precárias condições higiénica e alimentares, tinham de conviver com os cadáveres daqueles que uma hora antes estavam na mesma causa que eles. Que a morte co-habituava aqueles ambientes e que não era nada mais do sorte que aquela granada não tivesse acertado a ele. Que chegaram a usar braços de soldados para servirem de estacas para pendurar as suas vasilhas de água.
Não tinham dignidade na morte, não os respeitavam enquanto humanos e seres com direitos, os familiares não podiam chorar a sua perda e fazer qualquer tipo de cerimónia com o corpo do soldado morto. O quão triste deve ser ter de matar para sobreviver?
Poderá ser normal que não acham isto anormal, [a minha incredulidade] porque já ouviram relatos semelhantes. Por mais imagens que já tenha visto, por ainda que mais ou menos vaga, tenho noção dos horrores lá vividos, acho que sempre me mantive à margem deste sofrimento, porque tenho medo do que possa ouvir. Não sei lidar com a dor.
Ontem fez 20 anos da Queda do Muro de Berlim. Que não deixemos construir mais barreiras físicas e imaginárias sobre o Mundo. É nisto que quero acreditar, que a História serve para nos alertar dos erros já vividos e que todos nós somos capazes, até certo ponto, de evitar a dor.